— Querem ver que isto por aqui já é a serra de Taquaritu? pensou
Raimundo.
— Como é que você sabe? roncou um automóvel perto dele.
O pequeno voltou-se assustado e quis desviar-se, mas não teve tempo. O automóvel estava ali em cima, pega não pega. Era um carro esquisito: em vez de faróis, tinha dois olhos grandes, um azul, outro preto.
— Estou frito, suspirou o viajante esmorecendo.
Mas o automóvel piscou o olho preto e animou-o com um riso grosso de buzina:
— Deixe de besteira, seu Raimundo. Em Tatipirun nós não atropelamos ninguém.
Levantou as rodas da frente, armou um salto, passou por cima da cabeça do menino, foi cair cinqüenta metros adiante e continuou a rodar fonfonando. Uma laranjeira que estava no meio da estrada afastou-se para deixar a passagem livre e disse toda amável:
— Faz favor.
— Não se incomode, agradeceu o pequeno. A senhora é muito educada.
— Tudo aqui é assim, respondeu a laranjeira.
— Está se vendo. A propósito, por que é que a senhora não tem espinhos?
— Em Tatipirun ninguém usa espinhos, bradou a laranjeira ofendida. Como se faz semelhante pergunta a uma planta decente?
— É que sou de fora, gemeu Raimundo envergonhado. Nunca andei por estas bandas. A senhora me desculpe. Na minha terra os indivíduos de sua família têm espinhos.
— Aqui era assim antigamente, explicou a árvore. Agora os costumes são outros. Hoje em dia, o único sujeito que ainda conserva esses instrumentos perfurantes é o espinheiro-bravo, um tipo selvagem, de maus bofes. Conhece-o?
— Eu não senhora. Não conheço ninguém por esta zona.
— É bom não conhecer. Aceita uma laranja?
— Se a senhora quiser dar, eu aceito.
A árvore baixou um ramo e entregou ao pirralho uma laranja madura e grande.
— Muito obrigado, dona Laranjeira. A senhora é uma pessoa direita. Adeus! Tem a bondade de me ensinar o caminho?
— É esse mesmo. Vá seguindo sempre. Todos os caminhos são certos.
— Eu queria ver se encontrava os meninos pelados.
— Encontra. Vá seguindo. Andam por aí.
— Uns que têm um olho azul e outro preto?
— Sem dúvida. Toda gente tem um olho azul e outro preto.
— Pois até logo, dona Laranjeira. Passe bem.
— Divirta-se.
Deixe um comentário