No começo de 2021, durante um bloqueio na produção de meu primeiro romance, resolvi assistir ao musical Hamilton, disponível na Disney+, mesmo não sendo um grande fan do gênero. Eu não estava tendo um bloqueio criativo, mas sim motivacional. Eu pensava que todo o meu trabalho com aquele livro, que acumulava meses, causaria zero impacto no mundo, e isso me frustrava. Era uma visão estatisticamente realista, mas incompleta e auto-sabotadora.

Naqueles meses pandêmicos, pessoas ao meu redor recomendavam esse musical com tanta devoção que acabei cedendo. Primeiro tentei me situar: aquilo era uma peça sobre um dos fundadores dos Estados Unidos, até então menos popular que os demais, que foi tesoureiro e aparentemente figura chave na elaboração de leis muito relevantes até os dias atuais. Certo, até aí tudo bem, afinal, aquela gente aparenta ser patriota, e pelo que vemos em filmes, chegados a uma cantoria teatral. Mas então me dei conta de que as músicas, hip hop, R&B, pop e soul, com batalha de rimas entre Alexandre Hamilton e Thomas Jefferson, não seguiam o estilo Fantasma da Ópera, minha principal referência em se tratando de musicais. Fiquei confuso. Não era uma comédia escrachada: o espetáculo se levava a sério, apesar de algumas piadas bem colocadas. O elenco diverso também me chocou. Eu não esperava por atores de ascendência latina, ou afro-americana, interpretando figuras históricas tão ligadas a origem euro-centrista do país. Entretanto, essas estranhezas duraram quinze minutos ou menos. Creio que logo que a trama ganha corpo, três percepções se consolidam no coração do espectador: a jornada do protagonista nos prende; as músicas nos emocionam — pois são, de um jeito inesperado, verdadeiras, felizes, dançantes e, às vezes, maravilhosamente tristes; por último: o subtexto, que nos deixa ferozmente obcecados por tamanha genialidade.

Fui atrás de entender quem fez aquilo, como, e porquê. Em resumo, o universo permitiu uma combinação de eventos única, produzindo Lin Manuel Miranda, o dramaturgo, compositor e ator que idealizou, escreveu e deu vida a Hamilton, o musical da Broadway mais aclamado e premiado do século XXI. Com ascendência Porto-Riquenha, mesmo tendo crescido em Nova Iorque, Lin teve sua formação particularmente influenciada pela visão latina de como os Estados Unidos funcionam. E eu fiquei embasbacado, me tornei um admirador de tudo o que ele produz. Até hoje não sei se o que me deixou mais inspirado foi a impactante história de vida do protagonista Alexandre Hamilton, ou a maravilhosa trajetória de Lin Manuel, só sei que terminei meu romance, venci um concurso literário, conquistei uma nichada, porém afetiva base de leitores e venho colhendo doces frutos desde então.

Agora, no começo de 2026, diante de rascunhos do que pode se tornar meu novo projeto literário, me encontro em situação similar. É fácil travar as pernas diante de um obstáculo que, apesar de real, não é intransponível. Verdades como: “as pessoas preferem gastar três horas diárias vendo reels, do que quinze minutos semanais lendo um livro”, me fizeram ter dúvidas se devo mesmo continuar. Até que vi a repercussão desse tal Bad Bunny no Superbowl, domingo passado. Novamente, depois muita devoção alheia, somente quando todos já conheciam e amavam o cara, cedi. Para resumir… imagine agora leitor, um sorriso de maravilhamento em meu rosto enquanto escrevo. No começo eu não estava entendendo muito bem, como aparentemente é comum de acontecer. Assisti aos treze minutos da apresentação do intervalo do Superbowl no Youtube, achei interessante, mas não absorvi completamente. Então decidi ouvir ao album mais recente dele e fui, faixa a faixa, brutalmente arrasado — perdão pelo abuso de advérbios de intensidade, é que foi mesmo intenso. Aquela capa me trouxe aconchego; já o ritmo das faixas mais inspiradas em salsa e batucadas latinas fizeram minha cintura, há uns quinze anos enferrujada, desoxidar; já as letras… bom, o tema das canções foi o que me fez a ficha cair. Pesquisei um pouco a história do álbum, do cantor, da Costa Rica, do Avaí, de tantos casos recentes ligados a política Trump. Reassisti a apresentação de intervalo, dessa vez me contendo para não chorar. Vi então, no Youtube, gente de todo o mundo reagindo ao espetáculo, as lágrimas rolando com força. Eu senti que Benito, este maravilhoso artista de Porto Rico, falou diretamente comigo naquele momento — se você assistiu, sabe qual.

Nos empurram o vício nas redes sociais, em pornografia, em sites de apostas. Abusam de inteligencia artificial e outras ferramentas ambientalmente catastróficas. Nos causam o medo de perder o emprego, de ficarmos estúpidos, de não termos nada. Recarregado de inspiracão, novamente me lanco ao mundo: não soltemos a bandeira. Cabe a nós resistir lendo, cabe a mim continuar escrevendo. Obrigado Porto Rico, obrigado artistas e irmãos de toda as Américas.

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