Falar português propositalmente errado já é uma atividade lúdica e prazerosa, pelo menos desde Adoniran Barbosa. Já, escrever errado, acho que é menos bem visto, e não tão satisfatório quanto — porém muito necessário nos dias de hoje. Se você reparou no travessão da frase anterior e começou a desconfiar deste que assina a crônica, é disso que que estou falando. Nós escritores, por mais preciosistas que sejamos, estamos descobrindo que se faz necessário deixar passar uns errinhos tontos, só para vocês verem que não estamos mandando aquele robô do chat fazer todo o nosso trabalho (que meus chefes nunca leiam isso, porque eles querem o contrário: que eu use e abuse do danado). Fora que leitores adoram corrigir os nossos deslizes, gerando um aumento de engajamento sempre bem-vindo.
A fala segue imbatível como a melhor via de transgressão. Você não imagina como faz falta quebrar as regras só pra se divertir assistindo a reação alheia. É que trabalho com pessoas de várias partes do mundo, especialmente da América do Sul e Central. Em espanhol, por exemplo, estranho muito não pronunciar equivocadamente alguma atrocidade de maneira proposital. Acontece que meus colegas já estão acostumados a me ouvir assassinando sua gramática diariamente, então qualquer erro intencional seria indistinguível. Se alguém diz “Buenas tardes, todo bien?”, ainda não conheço um equivalente em espanhol para “bão e ocê?”, então só me resta oferecer uma respostinha sem graça do tipo “todo bien por acá, y tú?”.
É bela a poética do tropeçar nas sílabas quase certas. Desde que causei uma deliciosa crise de riso na sobrinha ao insistir em chamar aquela loja de materiais de Baraloti, não vejo a hora de apresentá-la ao cardaço, vrido e imbigo. No que depender de mim, deixarei sempre no ar se sou capaz de distinguir o correto entre “privilégio” e “previlégio”, “metereologia” e “meteorologia”.
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