A guariba paleolítica ficou tiritando, acocorada, a gemer.

— Dorminhoca! rosnou Sira. Que teria acontecido ao menino que virou mosquito?

— Parece que tornou a virar menino, disse Fringo.

— Não dá certo, gritou o anãozinho. É melhor continuar mosquito.

— Vamos consultar a guariba?

— Não convém, interveio a princesa Caralâmpia. Ela perdeu a bola. Voando, voando… Nunca vi animal tão idiota.

— Não senhora, protestou Raimundo. É um bicho sabido. Meu tio é aquilo mesmo, sabido que faz medo. Mas não fala direito. Resmunga. E engancha-se nas perguntas mais fáceis. A gente quer saber uma coisa, e ele se sai com umas compridezas, que dão sono. Vai resmungando, resmungando e muda no fim, acaba dizendo exatamente o contrário do que disse no princípio.

— Isso é insuportável, bradou Pirenco. Não tolero conversa fiada, panos mornos.

— Nem eu, concordou Talima. Pão pão, queijo queijo.

— Preciso voltar e estudar a minha lição de geografia, suspirou Raimundo.

— Demore um pouco, pediu Talima. Vamos ouvir a Caralâmpia. Por onde andou você quando esteve perdida, Caralâmpia?

A Caralâmpia começou uma história sem pé nem cabeça:

— Andei numa terra diferente das outras, uma terra onde as árvores crescem com as folhas para baixo e as raízes para cima. As aranhas são do tamanho de gente, e as pessoas do tamanho de aranhas.

— Quem manda lá? São as aranhas ou a gente? perguntou Raimundo.

— Não me interrompa, respondeu Caralâmpia. Os guris que eu vi têm duas cabeças, cada uma com quatro olhos, dois na frente e dois atrás.

— Que feiúra! exclamou Pirenco.

— Não senhor, são muito bonitos. Têm uma boca no peito, cinco braços e uma perna só.

— É impossível, atalhou Fringo. Assim eles não caminham. Só se for com muleta.

— Que ignorância! tornou Caralâmpia. Caminham perfeitamente sem muleta, caminham assim, olhe, assim.

Pôs-se a saltar num pé:

— Para que duas pernas? A gente podia viver muito bem com uma perna só.

Tentaram andar com um pé, mas cansaram logo e sentaram-se na grama.

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