— Preciso voltar, murmurou Raimundo.
O anãozinho chegou-se a ele e soprou-lhe ao ouvido:
— Tudo aquilo é mentira. Esta Caralâmpia mente!… Sira agastou-se:
— Mente nada! Por que é que não existem pessoas diferentes de nós? Se há criaturas com duas pernas e uma cabeça, pode haver outras com duas cabeças e uma perna. Este anão é burro.
— Estão mexendo comigo, choramingou o anãozinho. Mexem comigo porque eu sou miúdo.
A princesa Caralâmpia puxou-o por um braço, deitou-o no colo e embalou-o:
— Não chore, nanico. Na terra que eu visitei ninguém chora, apesar de todos terem oito olhos, quatro azuis e quatro pretos. As árvores têm as raízes para cima, as folhas para baixo e dão frutas no chão. Os frutos são enormes, as pessoas são como as aranhas.
— Onde fica essa terra,
Caralâmpia? perguntou o sardento.
— Não muito longe, no fim do mundo, respondeu a princesa. A gente chega lá voando.
— Como o mosquito da guariba, interrompeu o anão. Desconfio disso. Gente não voa.
— Ora não voa! exclamou Raimundo. Em Cambacará os homens voam.
— Voam de verdade ou de mentira? inquiriu Talima.
— Voam de verdade. Antigamente não voavam, mas hoje andam pelas nuvens em aviões, uns troços de metal que fazem zum… Certamente a Caralâmpia viajou num deles.
— Não foi não, disse Caralâmpia. Entrei num automóvel.
— Os automóveis aqui andam pelos ares, eu sei, confirmou Raimundo.
— Pois é. Entrei, mexi numa alavanca, o automóvel subiu, subiu, passou a lua, o sol e as estrelas.
— E chegou à terra dos meninos duma perna só, grunhiu o anãozinho. Não creio.
— Coitado, murmurou Talima. Este anão é um infeliz. Não faça caso, Pirundo.
— A senhora me troca sempre o nome. Eu já lhe disse um milhão de vezes que me chamo Raimundo.
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