Fringo, um menino preto, estirou o beiço e bocejou:
— Ilusões.
— Qual nada! Vira. Em Cambacará ninguém ignora isto. Vá lá e pergunte. Vira para um lado — tudo fica no claro, a gente, as árvores, as rãs, os pardais, os rios e as aranhas. Vira para o outro lado — não se vê nada, é aquele pretume. Natural. Todos os dias se dá.
— É engano, interrompeu Fringo.
— Não há noite?
— Há o que você está vendo.
— Não escurece, o sol não muda de lugar…
— Nada disso.
— Está bom. Preciso consertar o meu estudo de geografia.
Continuaram a marcha, andaram muito, e nenhuma notícia de Caralâmpia. O sol permanecia no mesmo ponto, no meio do céu. Nem manhã nem tarde. Uma temperatura amena, invariável.
— Deve haver um maquinismo de relógio lá por cima, calculou Raimundo. Vão ver que ele perdeu a corda e parou.
— Quer ouvir o meu projeto? interrompeu o sardento.
— Vamos lá, acedeu Raimundo. Mas antes me tire uma dúvida. Vocês não descansam nunca?
— Descansamos, explicou o outro. Quando a gente está fatigada, deita-se e fecha um olho.
— O olho preto ou o azul?
— Isso é conforme. Fecha-se um olho. O outro fica aberto, vendo tudo.
Deixe um comentário