O hóspede chegou-se a ela, desconfiado, espiando as cobrinhas com o rabo do olho. Curvou-se num salamaleque exagerado:
— Como vai vossa princesência?
— Princesência é tolice, declarou Pirenco.
— Tolice é amarrar cobras nos braços, replicou Raimundo. Onde já se viu semelhante disparate?
— Acabem com isso, ordenou Caralâmpia. Vamos deixar de encrenca. Por que é que não pode haver princesência? Isso é uma arenga besta, Pirenco.
Raimundo bateu palmas:
— Apoiado. Se há excelência, há princesência também. Está certo.
— Claro! concordou Talima. Se há Raimundo e Pirenco, há Pirundo também. Pirundo está certo.
— Não senhora. Pirundo está errado.
— Pois está, concedeu Talima.
— Está mesmo. Para que dizer que não está? triunfou Raimundo. Então você é princesa, hein? Como foi que você virou princesa?
— Virando, respondeu Caralâmpia. A gente vira e desvira.
— Logo vi, murmurou Raimundo. Pois é. Uma terra muito bonita a sua, princesa Caralâmpia. Estou com vontade de me mudar para aqui. Se eu vier, trago o meu gato. É um gato engraçado, diferente de vocês, com dois olhos verdes. E medroso, tem medo de rato.
— Como é que ele se chama? perguntou a princesa.
— Não tem nome não. Mas eu vou botar um nome nele.
— Bote Pirundo, sugeriu Talima.
— Boto nada! Vou procurar um nome bonito na geografia. A propósito, aquele rio que fecha é mesmo o rio das Sete Cabeças?
— Sem dúvida, informou Sira.
— Por que é que ele se chama rio das Sete Cabeças?
— Porque se chama. Sempre se chamou assim.
— Muito obrigado. Eu podia botar esse nome no meu gato. Mas ele só tem uma cabeça.
— Bobagem! exclamou Pirenco. Gato das Sete Cabeças! Quem já viu isso? Bote Tatipirun.
— Tatipirun é bonito, murmurou a princesa.
— Pois fica sendo Tatipirun. Quando eu vier, trago Tatipirun. Ele vai estranhar e miar no princípio, depois se acostuma. Vamos brincar de bandido?
— Aqui ninguém conhece esse brinquedo não, respondeu Sira. Vamos correr, saltar, dançar.
— Isso é cacete.
— Pois vamos fazer o anão virar príncipe.
— Não dou para isso não, protestou o anãozinho. É melhor conversar com
os bichos. Vamos procurar um bicho que saiba histórias compridas e bonitas.
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