Deixaram a artista e a representante da indústria dos tecidos, andaram cinqüenta passos e foram encontrar os meninos brincando na grama verde, fazendo um barulho desesperado.

— Isto é agradável, murmurou Raimundo. Tudo alegre, cheio de saúde… A propósito, ninguém adoece em Tatipirun, não é verdade?

— Adoece como?

— Julgo que vocês não vão ao dentista, não sentem dor de barriga, não têm sarampo.

— Nada disso.

— Não envelhecem. São sempre meninos.

— Decerto.

— Eu já presumia. Pois é, meu caro. Boa terra. Mas se todos fossem como o anãozinho e tivessem sardas, a vida seria enjoada.

O sardento pigarreou:

— É difícil a gente se entender.

As crianças dançavam e cantavam, enfeitadas de flores, agitando palmas.

— Viva a princesa Caralâmpia! gritavam. Viva a princesa Caralâmpia, que levou sumiço e apareceu de repente.

Caralâmpia estava no meio do bando, vestida numa túnica azulada cor das nuvens do céu, coroada de rosas, um broche de vaga-lume no peito, pulseiras de cobras-de-coral.

— Credo em cruz! gemeu Raimundo assombrado. Tire essa bicharia de cima do corpo, menina. Isso morde.
O vaga-lume tremelicou, brilhante de indignação:

— É comigo?

— Não senhor, é conosco, informaram as cobras. Aquilo é um selvagem. Na terra dele as coisas vivas mordem.

— Viva a Caralâmpia! repetia a multidão. Viva a princesa Caralâmpia!

— Onde já se viu cobra servir de enfeite? suspirava Raimundo. Que despropósito!

— Deixe disso, criatura, aconselhou Fringo, o menino preto. Você se espanta de tudo. Venha falar com a Caralâmpia.

— Eu sei lá falar com princesa! exclamou Raimundo encabulado.

— Ela é princesa de mentira, explicou Talima. É princesa porque tem jeito de princesa. Veja, Caralâmpia. Este é o Pirundo, que veio de Cambacará.

— Pirundo não. Ficou estabelecido que eu me chamo Raimundo mesmo.

— É. Ficou estabelecido que ele se chama Raimundo mesmo.

— Aproxime-se, convidou Caralâmpia.

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