Escolheu uma túnica azul, escondeu-se no mato e, passados minutos, tornou a mostrar-se vestido como os habitantes de Tatipirun. Descalçou-se e sentiu nos pés a frescura e a maciez da relva. Lá em cima os enormes discos de eletrola giravam; as cigarras chiavam músicas em cima deles, músicas como ninguém ouviu; sombras redondas espalhavam-se no chão.
— Este lugar é ótimo, suspirou Raimundo. Mas acho que preciso voltar. Preciso estudar a minha lição de geografia.
Nisto ouviu uma algazarra e viu através dos ramos a população de Tatipirun correndo para ele:
— Cadê o menino que veio de Cambacará?
Eram milhares de criaturas miúdas, de cinco a dez anos, todas cobertas de teias de aranha, descalças, um olho preto e outro azul, as cabeças peladas nuas. Não havia pessoas grandes, naturalmente.
— Cadê o menino que veio de Cambacará?
— Que negócio têm comigo? resmungou o pequeno alarmado. Parece uma procissão.
— Parece um “meeting”, disse uma rã que pulou da beira do rio.
— Parece um teatro, cantou um pardal.
Raimundo pôs-se a rir:
— Que passarinho besta! Ele pensa que teatro é gente. Teatro é casa.
— Eu estou falando nos sujeitos que estão dentro do teatro, pipilou o pardal.
— Bem, isso é outra cantiga, concordou Raimundo.
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