— Cadê o menino que veio de Cambacará? gritava o povaréu.

— Essa tropa não sabe geografia, disse Raimundo. Cambacará não existe.

— E por que é que não existe? perguntou a rã.

— Não existe não, sinha Rã. Foi um nome que eu inventei.

— Pois faz de conta que existe, ensinou a bicha. Sempre existiu.

— A senhora tem certeza?

— Naturalmente.

— Então existe.

A rã fechou o olho preto, abriu o azul e foi descansar numa poça d’água.

— Cadê o menino que veio de Cambacará?

— Estou aqui, pessoal, bradou Raimundo. Que é que há?

O rio se fechou de repente e a multidão passou por ele num instante. Depois as margens se afastaram, a água tornou a aparecer.

— Que rio interessante! exclamou Raimundo. Deve ter um maquinismo por dentro.

— Por que foi que você fugiu de nós? perguntou o rapazinho que tinha falado sobre a Caralâmpia.

— Espere aí. Eu já digo. Como é o seu nome?

— Pirenco.

— Que nome engraçado! Pirenco! Não há ninguém com esse nome.

— Eu sou Pirenco, replicou o outro.

— Pois sim. Não discutamos. Vamos ao caso do rio. Tem algum maquinismo por dentro?

— Não tem maquinismo nenhum, disse uma garota de túnica amarela. Todos os rios são assim.

— Claro! concordou Pirenco. Essa é a Talima.

— Prazer em conhecê-la, Talima. Você é bonita.

— E boa, interrompeu um menino sardento. Meio desparafusada, mas um coraçãozinho de açúcar. Aquela é a Sira.

— O tronco me falou em vocês todos. Como vai, Sira?

— Por que foi que você fugiu da gente?

Raimundo ficou acanhado, as orelhas pegando fogo:

— Sei lá! Burrice. Julguei que estivessem troçando de mim. Eu não tinha obrigação de conhecer a Caralâmpia. Quem é a Caralâmpia?

— Onde andará ela? inquiriu o sardento.

— Sumiu-se, explicou Talima. Foi uma menina que virou princesa.

— Caso triste, gemeu uma criatura miúda, de dois palmos. Quando penso que pode ter acontecido alguma desgraça…

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