— Isso mesmo. Fique com a gente. Aqui é tão bom…
— Não posso, gemeu Raimundo. Eu queria ficar com vocês, mas preciso estudar a minha lição de geografia.
— É necessário?
— Sei lá! Dizem que é necessário. Parece que é necessário. Enfim… não sei. Aí Raimundo entristeceu e enxugou os olhos:
— É uma obrigação. Vou-me embora. Vou com muita saudade, mas vou. Tenho saudade de vocês todos, as pessoas melhores que já encontrei. Vou-me embora.
— Volte para viver conosco, pediu Caralâmpia.
— É, pode ser. Se acertar o caminho, eu volto. E trago o meu gato para vocês verem. Não deixe de ser princesa não, Caralâmpia. Você fica bonita vestida de princesa. Quando eu estiver na minha terra, hei de me lembrar da princesa Caralâmpia, que tem um broche de vaga-lume e pulseiras de cobras-de-coral. E direi aos outros meninos que em Tatipirun as cobras não mordem e servem para enfeitar os braços das princesas. Vão pensar que é mentira, zombarão dos meus olhos e da minha cabeça pelada. Eu então ensinarei a todos o caminho de Tatipirun, direi que aqui as ladeiras se abaixam e os rios se fecham
para a gente passar.
Raimundo afastou-se lento e procurou orientar-se. Os outros o seguiram de longe, calados. Andaram até o rio. Lá estavam à margem, perto do tronco, os
sapatos e a roupa. O garoto escondeu-se no mato, vestiu-se de novo, tornou a pendurar no ramo a túnica azul que a aranha lhe tinha dado.
— Devolução? perguntou o bichinho.
— É, dona Aranha. Muito obrigado, não preciso mais dela.
— Quer dizer que volta para Cambacará, não é? coaxou a rã na beira da poça.
— Volto, sim senhora. Volto com pena, mas volto.
— Faz tolice, exclamou o tronco. Onde vai achar companheiros como esses que há por aqui?
— Não acho não, seu Tronco. Sei perfeitamente que não acho. Mas tenho obrigações, entende? Preciso estudar a minha lição de geografia. Adeus.
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