A cigarra lá de cima interrompeu a cantiga, estirou a cabecinha. Era uma cigarra gorda e tinha um olho preto, outro azul.

— Qual é a sua opinião? perguntou o sardento.

Raimundo hesitou um minuto:

— Não sei não. Eles caçoam de você por causa da sua cara pintada?

— Não. São muito boas pessoas. Mas se tivessem manchas no rosto, seriam melhores.

A aranha vermelha deu um balanço no fio e chegou ao disco de eletrola:

— Que história é aquela?

— Palavreado à-toa, explicou a dona da casa.

— À-toa nada! bradou o sardento. Cigarra e aranha não têm voto. Cada macaco no seu galho. Isto é um assunto que interessa exclusivamente aos meninos.

— Eu aqui represento a indústria dos tecidos, replicou a aranha arregalando o olho preto e cerrando o azul.

— E eu sou artista, acrescentou a cigarra. Palavreado à-toa.

Raimundo esfregou as mãos, constrangido, olhou os discos e as teias coloridas que se agitavam.

— Parece que elas têm direito de opinar. São importantes, são umas sabichonas.

— Direito de dizer besteiras! resmungou o sardento.

— Não senhor. A cigarra tem razão. Palavreado à-toa.

— Então você acha o meu projeto ruim?

— Para falar com franqueza, eu acho. Não presta não. Como é que você vai pintar esses meninos todos?

— Ficava mais certo.

— Ficava nada! Eles não deixam.

— Era bom que fosse tudo igual.

— Não senhor, que a gente não é rapadura. Eles não gostam de você?

Gostam. Não gostam do anão, do Fringo? Está aí. Em Cambacará não é assim, aborrecem-me por causa da minha cabeça pelada e dos meus olhos. Tinha graça que o anão quisesse reduzir os outros ao tamanho dele. Como havia de ser?

— Eu sei lá! rosnou o sardento amuado. O caso do anão é diferente. Parece que ninguém me entende. Vamos procurar os outros?

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